A semana de referência encerrada em 17 de agosto de 2026 confirma a trajetória de moderação inflacionária iniciada no primeiro trimestre do ano, ao mesmo tempo em que o Banco Central avança de forma gradual no ciclo de corte da taxa Selic. O IPCA de julho registrou variação de 0,07%, abaixo dos 0,16% de junho, numa desaceleração mensal que consolida o acumulado em 12 meses em 4,44%, patamar ainda acima do centro da meta mas dentro da margem superior de tolerância. O câmbio voltou a subir na margem, cotado a R$ 5,22 por dólar em 14 de agosto, mas segue abaixo dos patamares observados no fechamento de 2025 e no mesmo mês do ano anterior. A Selic, reduzida para 14,00% a.a., acumula recuo de 1,00 ponto percentual em doze meses, enquanto o IBC-Br de maio atingiu 111,04 pontos, novo patamar mais alto da série dessazonalizada analisada, sinalizando resistência da atividade econômica mesmo em ambiente de juros ainda restritivos.
Tabela-Resumo dos Indicadores
Indicador
Valor Atual
Data Referência
Var. Mês
Var. Ano
Var. 12m
IPCA (%)
0,07
01/07/2026
+0,07%
+3,44%
+4,44%
Câmbio (BRL/USD)
5,22
14/08/2026
+2,88%
-5,07%
-3,74%
Selic (% a.a.)
14,0
17/08/2026
-0,25%
-1,00%
-1,00%
IBC-Br (índice)
111,04
01/05/2026
+0,07%
+1,24%
+0,80%
Fontes: IBGE (IPCA, IBC-Br), Banco Central do Brasil (Selic, Câmbio). Elaboração: Raimundo Casé.
1. Inflação — IPCA
Análise
O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) variou 0,07% em julho de 2026, resultado abaixo dos 0,16% registrados em junho, o que representa uma desaceleração mensal de 0,09 ponto percentual. O número também ficou abaixo dos 0,26% observados em julho de 2025, reforçando a leitura de arrefecimento na comparação interanual do mesmo mês. Com o resultado de julho, o índice acumula alta de 3,44% no ano e 4,44% em 12 meses, patamar que permanece abaixo do teto de 4,5% da meta de inflação, mas ainda acima do centro de 3,0% perseguido pelo Banco Central.
A trajetória de 2026 mostra reversão importante frente ao pico observado em março, quando o índice chegou a 0,88% no mês, pressionado por itens sazonais e reajustes de início de ciclo. Desde então, a sequência de abril (0,67%), maio (0,58%), junho (0,16%) e julho (0,07%) descreve uma desaceleração consistente, associada à manutenção da Selic em patamar restritivo por período prolongado e ao recuo de preços de alimentos e de itens administrados. O comportamento contrasta com o observado em 2022, quando o país atravessou episódio de deflação mensal entre julho e setembro, motivado por corte de tributos sobre combustíveis, o que evidencia que a desinflação atual decorre principalmente de política monetária e não de choques fiscais pontuais.
Para os próximos meses, a manutenção do IPCA em patamares baixos tende a ampliar o espaço para a continuidade do ciclo de flexibilização monetária conduzido pelo Copom, desde que a inflação de serviços e as expectativas ancoradas no boletim Focus corroborem a convergência à meta. Ainda assim, a autoridade monetária deve manter cautela diante de riscos como a volatilidade cambial e o comportamento dos preços de bens administrados, que podem interromper a trajetória de queda observada desde março. A leitura predominante entre analistas é de que o IPCA de 12 meses continue em direção ao centro da meta ao longo dos próximos trimestres, desde que não haja reversão abrupta no câmbio ou nos preços de commodities agrícolas.
Gráfico
Fonte: IBGE — Sistema Nacional de Índices de Preços ao Consumidor (SNIPC). Elaboração: Raimundo Casé.
2. Câmbio — BRL/USD
Análise
A taxa de câmbio fechou a leitura de 14 de agosto de 2026 em R$ 5,22 por dólar, valor acima dos R$ 5,0773 observados no fechamento de julho, configurando alta mensal de 2,88%. Na comparação com o fim de 2025, quando a moeda americana era cotada a R$ 5,5024, o câmbio está 5,07% abaixo daquele patamar, indicando real mais valorizado. Em doze meses, a comparação com os R$ 5,4264 de agosto de 2025 também mostra o dólar 3,74% abaixo, evidenciando que, apesar da oscilação recente para cima, o real segue mais forte do que estava há um ano.
O ciclo cambial dos últimos cinco anos mostra pico de R$ 6,1923 em dezembro de 2024, decorrente de turbulência fiscal e reprecificação de risco doméstico associada às incertezas sobre a trajetória da dívida pública. Desde então, o real recuperou parte do valor perdido, movimento amparado pela manutenção de juros elevados no Brasil, que sustentam o diferencial de rentabilidade favorável ao carry trade, e por certa acomodação do cenário fiscal ao longo de 2025 e 2026. O patamar atual, ainda abaixo do pico histórico da série, mas superior às mínimas de abril deste ano (R$ 4,9886), ilustra a natureza oscilante do câmbio, sensível tanto a fatores externos quanto à percepção de risco doméstico.
Olhando à frente, a trajetória do câmbio deve continuar dependente da magnitude e do ritmo dos cortes de juros promovidos pelo Copom, uma vez que a redução do diferencial de juros tende a reduzir o apetite por posições em reais. Fatores externos, como a política monetária do Federal Reserve e o apetite global por risco em mercados emergentes, também devem seguir influenciando a paridade. Para o mercado exportador e para a inflação de bens importados, a manutenção do real em patamar mais valorizado do que o observado no biênio 2024-2025 representa fator de alívio, embora a alta pontual registrada em agosto sirva de alerta para a persistência de volatilidade no curto prazo.
Gráfico
Fonte: Banco Central do Brasil — PTAX (taxa de câmbio de referência). Elaboração: Raimundo Casé.
3. Juros — Selic
Análise
O Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a meta da Selic para 14,00% a.a., patamar 0,25 ponto percentual abaixo dos 14,25% vigentes em julho, dando sequência ao ciclo de flexibilização iniciado no primeiro trimestre de 2026. Em doze meses, a taxa acumula queda de 1,00 ponto percentual frente aos 15,00% observados em agosto de 2025, e a mesma magnitude de recuo se verifica na comparação com o fechamento de dezembro do ano passado. O movimento confirma a continuidade do processo gradual de normalização monetária após o período prolongado em que a taxa permaneceu no piso de 15,00% entre junho de 2025 e fevereiro de 2026.
A Selic partiu de 5,25% a.a. em meados de 2021 e passou por um longo ciclo de aperto que a levou a 13,75% já em 2022, patamar mantido por praticamente um ano até o início dos cortes em agosto de 2023. Um novo ciclo de altas, motivado pela deterioração das expectativas de inflação e por pressões fiscais, elevou a taxa novamente a partir do fim de 2024, culminando no pico de 15,00% a.a. mantido entre junho de 2025 e fevereiro de 2026. A atual rodada de cortes, iniciada em março de 2026 com a redução para 14,75%, seguiu em ritmo mais cauteloso do que o ciclo de alta anterior, com movimentos concentrados em 25 pontos-base nas reuniões mais recentes.
A continuidade do ciclo de cortes dependerá da consolidação da trajetória desinflacionária sinalizada pelo IPCA e da evolução do cenário fiscal, que segue como principal fonte de incerteza para o balanço de riscos do Copom. Caso a inflação de serviços e as expectativas de mercado sigam ancoradas, é razoável esperar novos cortes de 25 pontos-base nas próximas reuniões, na direção de uma taxa real de equilíbrio mais compatível com o crescimento potencial da economia. Contudo, eventual reversão do quadro fiscal ou choques externos podem levar a uma pausa no ritmo de flexibilização, dado o histórico recente de reversões de política monetária observado entre 2024 e 2025.
Gráfico
Fonte: Banco Central do Brasil — Comitê de Política Monetária (Copom). Série SGS 432 (Meta Selic). Elaboração: Raimundo Casé.
4. Atividade Econômica — IBC-Br
Análise
O IBC-Br dessazonalizado alcançou 111,04 pontos em maio de 2026, resultado 0,07% acima dos 110,96 pontos de abril, configurando novo patamar mais alto da série dessazonalizada dentro da janela de cinco anos analisada. Na comparação com o fechamento de dezembro de 2025, o índice acumula alta de 1,24% no ano, e o avanço chega a 0,80% frente a igual mês do ano anterior, evidenciando continuidade, ainda que moderada, do crescimento da atividade econômica. Já a série original, mais sensível a efeitos de calendário e sazonalidade, recuou de 113,99 para 109,53 pontos entre abril e maio, movimento típico de acomodação sazonal que não compromete a leitura de continuidade do crescimento capturada pela série ajustada.
A série de atividade econômica mostra recuperação consistente desde os mínimos observados no início de cada ano, período tradicionalmente marcado por sazonalidade negativa associada ao Carnaval e à menor quantidade de dias úteis. Em 2026, a série original chegou a cair para 102,36 pontos em janeiro, para em seguida saltar a 117,81 pontos em março, oscilação amplificada por efeitos de calendário que a série dessazonalizada corrige, mostrando trajetória bem mais suave, de 110,05 em janeiro a 111,04 em maio. Esse padrão de volatilidade da série original, recorrente também em 2023 (mínimo de 93,79 em janeiro e pico de 110,62 em março) e em 2024 (98,02 em janeiro e 109,59 em março), reforça a importância de acompanhar a série livre de sazonalidade para captar a real tendência da atividade.
Para os próximos meses, a manutenção do IBC-Br em patamar elevado sugere que a atividade econômica resiste, ainda que em ritmo moderado, ao ambiente de juros restritivos, o que tende a ser acompanhado com atenção pelo Copom na avaliação do hiato do produto e das pressões de demanda. Setores sensíveis a crédito devem seguir mais expostos ao custo de capital elevado, enquanto o consumo das famílias pode ser beneficiado pela desinflação em curso e pela recuperação real dos salários. A combinação entre atividade ainda em expansão e inflação em processo de convergência à meta favorece um cenário de pouso suave da economia, desde que a trajetória de cortes da Selic prossiga sem sobressaltos.
Gráfico
Fonte: Banco Central do Brasil — Índice de Atividade Econômica (IBC-Br). Elaboração: Raimundo Casé.
Síntese e Perspectivas
Inflação em trajetória de convergência. O conjunto de indicadores desta semana aponta para um cenário de moderação inflacionária mais consistente, com o IPCA de julho reforçando a desaceleração iniciada em março e o índice de 12 meses caminhando para dentro da margem de tolerância da meta, ainda que acima do centro perseguido pelo Banco Central. Esse movimento, se sustentado nos próximos meses, deve ampliar o espaço para a continuidade dos cortes de juros sem comprometer a ancoragem das expectativas.
Juros em normalização gradual. A Selic em 14,00% a.a., 1,00 ponto percentual abaixo do nível de um ano atrás e também abaixo do pico do ciclo, reflete a postura cautelosa do Copom diante de um ambiente em que a atividade econômica, medida pelo IBC-Br, segue em patamar recorde. Essa combinação de juros ainda elevados e atividade resiliente sugere que o processo de flexibilização monetária tende a permanecer gradual, evitando riscos de reaceleração da demanda agregada.
Câmbio sensível ao diferencial de juros. A alta pontual do dólar frente ao real em agosto, embora relevante no curto prazo, não reverte o quadro de valorização acumulada da moeda brasileira nos últimos doze meses, nem aproxima a cotação dos patamares observados no pico de dezembro de 2024. A trajetória futura do câmbio deve permanecer atrelada ao ritmo dos cortes de Selic e ao comportamento da política monetária americana, com impacto direto sobre a inflação de bens comercializáveis.
Atividade resiliente sustenta cenário de pouso suave. A combinação entre desinflação em curso, juros em processo de normalização e atividade econômica em patamar elevado favorece a hipótese de desaceleração controlada da economia brasileira, sem sinais evidentes de recessão ou de reaceleração inflacionária. Os principais riscos para esse cenário seguem concentrados no quadro fiscal e na volatilidade externa, fatores que devem permanecer no radar do Banco Central nas próximas reuniões do Copom.