Boletim Macroeconômico Semanal

Semana de referência: 2026-09-28

Autor

Raimundo Casé

Data de Publicação

28 de setembro de 2026

Raimundo Casé - economista

Panorama Geral

A semana de referência de 28 de setembro de 2026 consolida um quadro de transição na economia brasileira. O IPCA de agosto surpreendeu ao registrar variação negativa de 0,32%, ante alta de 0,07% em julho, configurando o primeiro resultado de deflação mensal do ano e reforçando a trajetória de desinflação que já vinha se desenhando desde o pico de março. No câmbio, o real recuou ligeiramente frente ao dólar no mês, com a cotação subindo para R$ 5,21, mas mantém trajetória de valorização quando observados os horizontes de doze meses e do acumulado do ano. A Selic, por sua vez, seguiu o ciclo de afrouxamento monetário iniciado no primeiro trimestre, com novo corte de 0,25 ponto percentual, chegando a 13,75% a.a., o menor patamar desde o início do ciclo de aperto anterior. Já o IBC-Br, proxy mensal do PIB, mostrou o terceiro mês consecutivo de recuo, após atingir seu ponto mais alto da série em maio, sinalizando perda de fôlego da atividade econômica em meio a juros reais ainda elevados. O conjunto dos indicadores aponta para uma economia em desaceleração gradual, com espaço crescente para a continuidade do ciclo de cortes de juros caso a inflação corrente confirme a trajetória benigna observada em agosto.

Tabela-Resumo dos Indicadores

Indicador Unidade Valor Atual Data Referência Var. Mês Var. Ano Var. 12 Meses
IPCA % -0.32 2026-08-01 -0.32% 3.11% 4.22%
Cambio BRL/USD 5.21 2026-09-28 0.61% -5.26% -1.98%
Selic % a.a. 13.75 2026-09-28 -0.25% -1.25% -1.25%
IBC-Br indice 109.92 2026-07-01 -0.22% 1.5% 1.14%

Fontes: IBGE (IPCA, IBC-Br), Banco Central do Brasil (Selic, Câmbio). Elaboração: Raimundo Casé.

1. Inflação — IPCA

Análise

O IPCA de agosto de 2026 apresentou variação de -0,32%, resultado abaixo dos 0,07% registrados em julho, uma vez que -0,32 menos 0,07 resulta em -0,39 ponto percentual. Trata-se de uma desaceleração acentuada que levou o índice a território de deflação mensal, o primeiro do ano. No acumulado de doze meses, a inflação está em 4,22%, e no acumulado do ano em 3,11%, patamares que, embora ainda acima do centro da meta de 3,0%, seguem dentro do limite superior da banda de tolerância de 4,5% definida pelo Conselho Monetário Nacional.

O resultado de agosto se insere em uma trajetória de desinflação que vem se consolidando ao longo de 2026. Depois do pico de 0,88% em março, o índice mensal recuou de forma praticamente contínua: 0,67% em abril, 0,58% em maio, 0,16% em junho e 0,07% em julho, até a virada negativa em agosto. Comparado a agosto de 2025, quando o IPCA também havia sido negativo, em -0,11%, o resultado deste ano é ainda mais baixo, já que -0,32 menos (-0,11) equivale a -0,21 ponto percentual, indicando uma deflação mais intensa do que a observada no mesmo mês do ano anterior. Fatores sazonais ligados a alimentos in natura e tarifas de energia elétrica, somados aos efeitos defasados do aperto monetário promovido em 2025, ajudam a explicar o comportamento benigno dos preços.

Para os próximos meses, a consolidação de uma inflação corrente baixa tende a reforçar o espaço para a continuidade do ciclo de cortes da Selic, desde que o Comitê de Política Monetária confirme a convergência do índice acumulado em doze meses para o centro da meta. Ainda assim, a autoridade monetária deve monitorar riscos altistas pontuais, como oscilações cambiais e choques em preços administrados, que podem interromper a trajetória de queda observada até aqui.

Gráfico

Fonte: IBGE — Sistema Nacional de Índices de Preços ao Consumidor (SNIPC). Elaboração: Raimundo Casé.

2. Câmbio — BRL/USD

Análise

A taxa de câmbio encerrou a semana de referência cotada a R$ 5,21 por dólar, alta de 0,61% em relação ao mês anterior, quando o dólar era negociado a R$ 5,1816, já que 5,21 menos 5,1816 resulta em um valor positivo de aproximadamente 0,03, confirmando a depreciação pontual do real no curto prazo. Apesar do movimento de alta mensal, o quadro se inverte nos horizontes mais longos: no acumulado do ano a moeda americana recua 5,26% frente ao real, e nos últimos doze meses a queda é de 1,98%, evidenciando que a valorização da moeda brasileira ao longo do período mais amplo supera a oscilação recente.

Em perspectiva histórica, o câmbio percorreu uma trajetória de forte alta entre 2024 e o início de 2025, tendo atingido R$ 6,19 em dezembro de 2024, e desde então vem descrevendo uma tendência de recuo, com oscilações dentro da faixa entre R$ 4,99 e R$ 5,32 ao longo de 2026. Em setembro de 2025 a cotação estava em R$ 5,3186, patamar superior ao atual, o que corrobora a valorização acumulada do real no intervalo de doze meses. Esse comportamento reflete, entre outros fatores, a manutenção do diferencial de juros favorável ao Brasil e um cenário externo relativamente mais estável para moedas emergentes.

Olhando à frente, a continuidade do ciclo de cortes da Selic tende a reduzir gradualmente o diferencial de juros que hoje sustenta o fluxo de capital estrangeiro para ativos brasileiros, o que pode pressionar o câmbio em direção à depreciação nos próximos meses. Por outro lado, a manutenção de um cenário fiscal e externo estável tende a atenuar esse efeito, mantendo a volatilidade da moeda em níveis administráveis no curto prazo.

Gráfico

Fonte: Banco Central do Brasil — PTAX (taxa de câmbio de referência). Elaboração: Raimundo Casé.

3. Juros — Meta Selic

Análise

O Comitê de Política Monetária reduziu a meta Selic em 0,25 ponto percentual, levando a taxa de 14,00% para 13,75% a.a., já que 13,75 menos 14,00 resulta em -0,25, confirmando o corte. No acumulado do ano e nos últimos doze meses, a queda é de 1,25 ponto percentual em ambos os casos, uma vez que a taxa partiu de 15,00% tanto em dezembro de 2025 quanto em setembro de 2025, e 13,75 menos 15,00 resulta em -1,25.

A série histórica mostra que a Selic permaneceu estacionada em 15,00% a.a. entre junho de 2025 e fevereiro de 2026, o patamar mais alto do ciclo de aperto monetário iniciado em 2024 para conter a reaceleração inflacionária daquele período. A partir de março de 2026 teve início um ciclo de flexibilização gradual, com cortes gradativos e majoritariamente de 0,25 ponto percentual por reunião, que reduziu a taxa de 15,00% para os atuais 13,75% em seis meses, uma queda acumulada de 1,25 ponto percentual desde o pico.

A manutenção do ritmo de cortes dependerá da confirmação da trajetória de desinflação sinalizada pelo IPCA de agosto. Caso os próximos indicadores de preços corroborem esse cenário benigno, é razoável esperar a continuidade de reduções de 0,25 ponto percentual por reunião, ainda que o Copom deva manter cautela diante de eventuais pressões cambiais e da necessidade de ancorar as expectativas de inflação para o centro da meta.

Gráfico

Fonte: Banco Central do Brasil — Comitê de Política Monetária (Copom). Série SGS 432 (Meta Selic). Elaboração: Raimundo Casé.

4. Atividade Econômica — IBC-Br

Análise

O IBC-Br dessazonalizado de julho de 2026 ficou em 109,92 pontos, variação de -0,22% ante junho, quando o índice estava em 110,16 pontos, já que a diferença relativa entre os dois valores é negativa, configurando o terceiro mês consecutivo de recuo da atividade. Apesar do movimento recente de queda, o índice ainda exibe alta de 1,50% no acumulado do ano e de 1,14% na comparação com os últimos doze meses, refletindo o crescimento acumulado da atividade ao longo do período mais amplo.

O comportamento recente contrasta com a trajetória observada na primeira metade de 2026, quando o índice avançou de forma consistente até atingir 111,14 pontos em maio, o valor mais elevado de toda a série histórica analisada. A partir de então, a atividade perdeu força: em junho o recuo foi de aproximadamente 0,88% frente a maio, e em julho a nova queda de 0,22% frente a junho consolidou dois meses seguidos de perda de ritmo. Esse movimento de desaceleração ocorre em um contexto de juros reais ainda elevados, mesmo com os cortes recentes da Selic, o que tende a conter o dinamismo do consumo e do investimento no curto prazo.

Para os próximos meses, a leitura mais provável é a de uma desaceleração gradual e controlada da atividade, compatível com o processo de convergência da inflação para a meta. Um afrouxamento monetário mais consistente, caso a trajetória de desinflação observada em agosto se confirme, tende a oferecer suporte à atividade ao longo dos próximos trimestres, mitigando o risco de uma desaceleração mais acentuada.

Gráfico

Fonte: Banco Central do Brasil — Índice de Atividade Econômica (IBC-Br). Elaboração: Raimundo Casé.

Síntese e Perspectivas

O conjunto de indicadores desta semana de referência desenha um quadro coerente de transição para um ciclo econômico mais brando, tanto em preços quanto em atividade. Inflação em processo de convergência: a passagem do IPCA para território de deflação mensal em agosto, somada à desaceleração observada desde março, reforça a percepção de que a política monetária contracionista adotada em 2025 vem surtindo o efeito desejado sobre os preços, ainda que o acumulado em doze meses permaneça acima do centro da meta.

Câmbio estável em patamar mais valorizado: apesar da leve alta mensal do dólar frente ao real, o quadro de médio prazo aponta para uma moeda brasileira mais valorizada do que há um ano, favorecida pelo diferencial de juros e por um cenário externo relativamente ameno para emergentes. Esse ambiente cambial mais estável contribui, por sua vez, para a manutenção de expectativas de inflação ancoradas.

Juros em trajetória de afrouxamento gradual: o corte mais recente da Selic, que a levou a 13,75% a.a., confirma a continuidade de um ciclo iniciado em março e já soma 1,25 ponto percentual de redução acumulada. A manutenção desse ritmo dependerá da confirmação da trajetória benigna da inflação, sem descuidar dos riscos associados à volatilidade cambial e a eventuais choques externos.

Atividade em desaceleração controlada: o recuo do IBC-Br pelo terceiro mês seguido, após o pico de maio, sugere que os efeitos defasados dos juros ainda elevados seguem restringindo o dinamismo da economia real. Ainda assim, o saldo positivo no acumulado de doze meses indica que a desaceleração em curso ocorre a partir de uma base de atividade relativamente forte, o que reduz o risco de uma desaceleração mais abrupta caso o Copom mantenha o ritmo de cortes nos próximos meses.